Dois anos depois de uma das maiores catástrofes climáticas do Rio Grande do Sul, os sinais do desastre ainda estão por toda parte.
Eles não aparecem apenas nas estatísticas ou nos relatórios oficiais, mas seguem visíveis nas paredes marcadas pela lama, nas casas improvisadas, nas estruturas públicas que demoraram a ser recuperadas e, sobretudo, na memória de milhares de moradores que ainda convivem com as consequências daquele período.
Em 2024, as enchentes devastadoras afetaram 478 dos 497 municípios gaúchos, provocando alagamentos, inundações e deslizamentos de terra. Além de um cenário de destruição, a enxurrada matou mais de 180 pessoas entre os dias 30 de abril e 6 de maio.
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Foto: Décio Marques/SEMAM
Porto Alegre, Canoas, Eldorado do Sul e Roca Sales estiveram entre as cidades mais impactadas, conforme avaliação da Defesa Civil.
No entanto, os efeitos da enchente se espalharam por todo o território gaúcho, atingindo também municípios como Novo Hamburgo e São Leopoldo, no Vale do Sinos, São Sebastião do Caí, no Vale do Caí, e Três Coroas, no Paranhana.
Passados dois anos, a reconstrução avança em diferentes ritmos. Enquanto algumas estruturas começam a ser retomadas, outras seguem paradas, e há situações em que a solução ainda sequer saiu do papel. Em comum, o sentimento de que a enchente de 2024 ainda não terminou.
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“Minha janela é um papelão”: Novo Hamburgo ainda tem demanda por moradias
Obras para melhorar o escoamento da água até o Rio dos Sinos ainda não foram totalmente concluídas em Novo Hamburgo. Ações nesse sentido ainda ocorrem nos arroios do município. Mas é a demanda por moradia, especialmente para famílias que residem em áreas de risco próximas ao dique e à casa de bombas do bairro Santo Afonso, o maior dos problemas do município.
A Prefeitura não respondeu quantas famílias foram mapeadas pela Defesa Civil ou secretaria competente morando em áreas de risco após a enchente, nem quantas famílias ainda aguardam uma casa nova ou a inclusão em algum programa social para sair destes locais.

Foto: Isaías Rheinheimer/GES-Especial
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Contudo, basta circular pelos bairros afetados e conversar com os moradores que é possível identificar inúmeras famílias que estão na expectativa de um sinal do poder público, seja o reassentamento em um novo local, seja a inclusão em um programa social.
A aposentada Altair da Silva Almeida, 67 anos, é uma delas. Moradora da Santo Afonso, nas proximidades da Rua Eldorado, há 27 anos, Altair conta que ela e filha decidiram permanecer morando na mesma casa que foi uma das centenas de residências devastadas pela enchente. “Ficamos porque não temos muito dinheiro para pagar um aluguel, nem mesmo para comprar um outro lugar”.
A aposentada explica que decidiu não reformar a casa, pois as casas vizinhas à sua foram demolidas pela Prefeitura após a enchente. “Só lavei e ficou assim. Uma das minhas janelas caiu na enchente e hoje minha janela é um papelão”, explica.
Sem qualquer sinal de ser beneficiada por algum programa público de moradia, ela não alimenta muitas expectativas de sair do local. “Minha filha começou a trabalhar em dois turnos e agora começou a planejar juntar um dinheirinho para dar entrada em uma casa nova, daí vou pensar se irei com ela”, coloca.
Obra de reforma de posto de saúde leva dois anos para começar
Enquanto patina na questão da moradia, o município avança para resolver outras demandas reprimidas da enchente.
É o caso do posto de saúde da Vila Palmeira, também no bairro Santo Afonso, que está fechado desde o desastre climático de dois anos atrás. A unidade de saúde foi uma das tantas repartições públicas que ficaram embaixo d’água por mais de um mês e até hoje não reabriu.
A demora para a realização da reforma se deve a dois processos licitatórios problemáticos. Somente após a terceira licitação é que a obra começou a andar, há cerca de duas semanas. Apesar do início da reforma, as marcas de lama ainda estão visíveis nas paredes da unidade de saúde, mas em breve ficarão no passado.

Foto: Isaías Rheinheimer/GES-Especial
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Na prática, apenas o esqueleto do prédio será mantido, e todo o restante será refeito. Na quinta-feira (23), a empreiteira contratada já havia praticamente removido o piso velho e o gesso do forro da unidade.
Algumas aberturas e todos os aparelhos de ar condicionado também já não estavam mais no local. O reboco da parede também deve ser refeito em praticamente todas as salas.
O investimento é de R$ 1,2 milhão e a obra deve estar pronta em quatro meses, quando então o posto voltará a funcionar no local de origem.
Hoje, os atendimentos da USF Palmeira são realizados junto ao Programa Nutrir e, em média, 217 atendimentos por dia, incluindo consultas médicas, serviços de enfermagem, vacinação e farmácia são realizados no local. Com a reabertura no prédio original, a Secretaria de Saúde estima um aumento de cerca de 20% na capacidade de atendimento.
Ruas que nunca alagavam passaram a registrar problemas corriqueiros em São Leopoldo
Em São Leopoldo, os reflexos da enchente histórica também seguem impactando o cotidiano dos moradores. Assim como em Novo Hamburgo, o problema da moradia ainda é um desafio a ser enfrentado e superado, mas há tantos outros impactos trazidos pela enchente que fazem a comunidade não esquecer daqueles dias.
Um desses problemas é a questão da drenagem da cidade que, mesmo passados dois anos da cheia, ainda não se resolveu. Algumas ações foram realizadas para melhorar o escoamento da água, como o desassoreamento do Rio dos Sinos, a limpeza de córregos e intervenções com hidrojateamento em diferentes ruas da cidade, alagamentos seguem ocorrendo.
Ainda assim, conforme os moradores de diferentes bairros, como Santos Dumont, Rio dos Sinos, Vicentina e Scharlau, após a última grande enchente, basta uma chuva um pouco mais forte que as ruas ficam alagadas e a água até ameaça entrar nos imóveis e estabelecimentos.
A empresária Cristiane Araújo Motta, 52 anos, dona de uma academia na Vila Brás, afirma que antes da enchente a rua em que mora e tem seu negócio não enfrentava problemas em dias chuvosos, mas que essa realidade mudou desde então.
A Rua Guaíba, que é uma travessa da principal via do bairro, a Rua Leopoldo Wasun, passou a alagar sempre que chove.
“Moro há 40 anos aqui e essa não era nossa realidade. Não tínhamos nenhum problema por causa da chuva por aqui. Depois da enchente, a rua não parou mais de encher, de alagar”, explica.
Na semana do Carnaval deste ano, por exemplo, a água voltou a entrar dentro da casa da empresária, molhou móveis e reascendeu aquela sensação de impotência. “Aí vem um filme na cabeça, estragou as coisas, sempre gera um estresse”, pontua.
Outras tantas famílias da Brás e de outros bairros também sofrem o mesmo problema. Moradora da Scharlau, Thaís de Jesus Acosta, 22 anos, conta que na Rua Niterói, onde mora, também passou a sofrer com constantes alagamentos após a enchente.

Foto: Thaís de Jesus Acosta
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No caso desta rua, segundo a estudante, antes da enchente a Prefeitura havia realizado uma obra para melhorar a drenagem do local que até resolveu o problema, mas logo depois de a obra ser concluída, veio a enchente, que voltou a entupir a rede pluvial e a causar alagamentos corriqueiros no trecho que tem pouco mais de um quilômetro.
“Sempre fica aquele pensamento de que a água pode entrar nas casas de novo”, pontua.
Prefeito apresenta os desafios que São Leopoldo ainda tem em relação à cheia de 2024
O prefeito de São Leopoldo, Heliomar Franco, destaca avanços no sistema de proteção à cheia no município, como as intervenções realizadas em toda extensão do dique que protege diversos bairros de cheias do Rio dos Sinos.
“O sistema original dos diques está praticamente restituído à altura original, que com o passar do tempo foi adensando, pela chuva e pelo tráfego de veículos”, pontua.
Contudo, Franco também revela os desafios a curto e médio prazo que o governo ainda tem em relação ao desastre climático que deixou mais de cinco bairros embaixo d’água.
A curto prazo, uma das melhorias é elevar o muro do Arroio Cerquinha, cuja obra deve iniciar no próximo mês, e desassorear o Arroio Gauchinho, no limite com Novo Hamburgo. “Dali sairão cerca de 70 mil toneladas de terra e areia, formando uma grande bacia de amortecimento das águas de chuva. São cerca de 4 mil viagens de caminhões”, destaca.
Além disso, segundo o prefeito, o governo está providenciando a instalação de duas bombas anfíbias na Vila Brás e a fixação de outra no bairro Vicentina.
A médio prazo, Franco prevê a construção de uma nova casa de bombas com cinco equipamentos novos na comunidade Steigleder, no bairro Rio dos Sinos, com nova bacia de amortecimento e uma grande vala de drenagem.
Nesse meio tempo, seguem obras de desobstrução de tubulações de água e esgoto, e limpeza e substituição de tampas de bocas de lobo pela cidade. “São cerca de 700 pontos de alagamentos mapeados em meio digital que estão sendo corrigidos”, explica.
O governo também quer realizar algumas obras estruturantes em locais históricos de alagamentos pela cidade, que já foram mapeados e serão objeto de intervenções maiores.
Três Coroas ainda não fez contenção de encosta que desmoronou e destruiu mais de 20 casas
No Vale do Paranhana, Três Coroas foi um dos mais prejudicados com os eventos climáticos de 2024.
Além de sofrer com a cheia do rio que corta o município, que deixou um rastro de destruição e invadiu inúmeras casas, um deslizamento de terra destruiu mais de 20 residências na Vila Dreher, próximo ao limite com Gramado.
Algumas dessas casas foram soterradas e ficaram desmanchadas pela avalanche de terra. Outras que tiveram a estrutura danificada e foram condenadas pela Defesa Civil por conta do tremor de terra. Cerca de 100 pessoas foram diretamente afetadas pelo episódio.
Dois anos depois, as marcas desse desastre, que não acabou em tragédia pois as rachaduras da encosta foram vistas previamente e a área foi evacuada, seguem por lá.
Menos vistosas, é verdade, pois a vegetação já começa a mudar a paisagem da terra revirada, mas ainda assim há vestígios das casas que foram levadas pelo deslizamento e tantas outras que foram demolidas após condenadas.
O que não mudou de lá para cá é a construção de uma barreira de contenção dessa encosta no final da Rua Jacob Limm, que dá de frente para as ruas Guilherme Hoppem e José Brocker.
Conforme a Defesa Civil, o município foi contemplado com recursos do governo federal para realizar a obra, que deve custar em torno de R$ 15 milhões. O projeto está em fase final.
“Vamos fazer uma espécie de escadaria de escoamento, para diminuir a velocidade da água, para que não ocorram mais deslizamentos naquela parte, para não prejudicar os moradores debaixo”, explica Augusto Dreher, coordenador local da Defesa Civil.
Em outra parte do mesmo loteamento, embora seja considerado seguro, também está prevista a construção de taludes com drenos para direcionar a água para uma rede pluvial e assim evitar que ela desça pelo meio do loteamento. “Assim também vamos evitar os deslizamentos de terra”, completa.
Fora isso, a Defesa Civil de Três Coroas também aponta a necessidade de se avançar nas ideias de contenção de encostas no bairro Semaco e nos loteamentos Leuck e Arpoador. “Todas essas áreas são preocupantes para a gente e estamos monitorando. Mas temos que voltar a nossa atenção para fazer um processo definitivo”, conclui Dreher.
Escoras de madeira mantêm de pé casarão histórico onde funcionava braço cultural de São Sebastião do Caí
Um casarão antigo de São Sebastião do Caí, onde ocorriam oficinas culturais, segue interditado desde a enchente de 2024.
Há um mês, as paredes laterais foram escoradas por ripas de madeira pelo risco de desmoronamento da estrutura.
Apesar de não ter a sede disponível, as oficinas do Cemaca estão sendo realizadas em outro espaço público, mas o sentimento da população é de tristeza por ver o patrimônio histórico sendo abandonado aos poucos.
“O Caí está perdendo toda sua essência, aquele charme de cidadezinha do interior, por não valorizar a história”, opina a moradora Zoraia Câmara, 66 anos.
Zoraia recorda que, assim como tantos outros prédios históricos que foram demolidos ao longo do tempo, o prédio do Cemaca era reconhecido como um ponto cultural do município.
“O charme era estar ali, nesse prédio que tem história, essência e uma energia incrível. A gente passa pela frente e bate uma tristeza profunda, principalmente pra gente que tem mais idade e conhece a história desse lugar”, complementa.
A Prefeitura garante que o processo de recuperação do prédio do Cemaca vem sendo conduzido com responsabilidade técnica e atenção à segurança da edificação.
Ainda conforme o Executivo, o projeto de recuperação foi elaborado ainda em 2024 e, ao longo de 2025, o município atuou na ampliação dos recursos junto à Defesa Civil Nacional, viabilizando financeiramente a execução da obra.
A partir disso, foram realizados os processos licitatórios, que passaram a enfrentar “intercorrências ao longo de sua tramitação, o que acabou impactando no prazo para o início efetivo das obras”.
Quando a reforma iniciou, conforme a administração, foram identificadas patologias estruturais não evidentes, decorrentes dos danos causados pelas cheias, que não puderam ser plenamente diagnosticadas na fase inicial de elaboração do projeto.
“Diante desse novo cenário técnico, tornou-se necessária a reavaliação das condições estruturais do prédio. Por medida de segurança e preservação do patrimônio, as intervenções no prédio principal do Cemaca foram temporariamente suspensas”, diz a nota.
Atualmente, a Prefeitura está em trâmites para a contratação de empresa especializada, que será responsável pela elaboração de um laudo técnico aprofundado e de um projeto específico de estabilização da fachada e reforço estrutural para, então, retomar a obra.
Obras na RS-124 ainda não saíram do papel
Outra marca da enchente de 2024 para alguns municípios do Vale do Caí são obras prometidas para tentar minimizar os impactos das cheias do rio que atravessa as cidades de São Sebastião do Caí, Pareci Novo e Harmonia.
Logo após a enchente histórica, o governo do Estado prometeu a construção de cinco galerias em um trecho de 7 quilômetros da RS-124 para permitir um escoamento maior da água para as várzeas do Rio Caí em períodos de cheia.

Foto: Isaías Rheinheimer/GES-Especial
A promessa é de instalação de uma galeria no trecho de São Sebastião do Caí, próximo à margem do rio, outra no perímetro de Harmonia, e três no trecho de Pareci Novo.
O Departamento Autônomo de Estradas de Rodagem (Daer) chegou a detalhar o projeto, informando que as galerias serão duplas, sendo que cada uma terá três metros de altura por três metros de largura (3×3). Entretanto, até hoje, a obra não aconteceu.
O Daer foi procurado, mas até o fechamento desta reportagem, não retornou o contato para explicar o motivo pelo qual a obra não andou.